Voz infantil e da terceira idade

A voz é produzida pelas pregas vocais, localizadas na laringe, através de um complexo mecanismo envolvendo estruturas nervosas, músculos e órgãos do corpo humano. O som produzido é modificado e amplificado pelas cavidades de ressonância do trato vocal e por meio das variações físicas de cada indivíduo e torna-se único em seu timbre. A voz é utilizada para transmitir sentimentos, pensamentos e personalidade. O desenvolvimento da voz acompanha os desenvolvimentos físico, psicológico e social do indivíduo. As mudanças mais notáveis ocorrem na puberdade, nas alterações hormonais de correntes da idade, como a menopausa para as mulheres e a andropausa para os homens.

No início, a laringe se apresenta muito alta e seguindo ao desenvolvimento orgânico, ela inicia sua descida em relação a posição no pescoço, o que continua por toda a vida, partindo da vértebra cervical C3, no recém-nascido, passando por C3 e C4 em crianças de 5 anos, por C7 dos 15 a 20 anos, onde permanece durante a vida adulta, posicionando-se abaixo de C7 em pessoas idosas. A consequência direta a esse fato é o alongamento do tubo de ressonância que pode amplificar melhor as frequências graves.

Até a puberdade a laringe é bem semelhante em ambos os sexos. Nesse período ocorre o crescimento da laringe que é mais acentuado nos homens. Esse crescimento associado à ação dos novos níveis hormonais transforma a laringe infantil em laringe adulta, chamada de mutação vocal fisiológica, ou simplesmente muda vocal. O período de muda vocal que ocorre na puberdade é o momento crucial para a definição de uma voz adulta. No homem ocorre ao redor de 13-15 anos, enquanto nas mulheres é ao redor de 12-14 anos. A vida sedentária e hábitos alimentares podem atrasar o processo, bem como a influência do clima que nas regiões quentes podem adiantar e nas frias atrasar a mudança.
Na velhice a voz dos homens e das mulheres volta a se aproximar em frequência sonora, devido a redução na produção de hormônios tanto masculinos como femininos. As alterações mais frequentes do envelhecimento em relação à voz são: acurácia, velocidade, resistência, estabilidade, força e coordenação. A chamada presbifonia, envelhecimento natural da voz, varia de acordo com indivíduo, com sua saúde física e psicológica, além de fatores sociais, raciais, hereditários, sociais e ambientais.

Voz infantil

A laringe aparece na terceira semana de vida intrauterina, a partir de um prolongamento da faringe como uma dobra do endoderma. Silvia Pinho descreve que no terceiro mês de vida intrauterina, a laringe tem as mesmas características observadas no recém-nascido, com a cartilagem tireoide contígua ao o osso hioide e, a epiglote volumosa em forma de ômega. Logo após, no nascimento, a voz surge, representada pelo choro como símbolo da chegada ao mundo.

O choro reflete a habilidade do bebê de controlar a sua voz e seu primeiro canal de expressão vocal. Em seguida, a criança começa a usar a voz para a fala desenvolvendo uma habilidade complexa e sofisticada no trato vocal. Durante a infância, as características da voz dependem do grau de amadurecimento físico, cognitivo e emocional apresentado pela criança. O controle da respiração influi diretamente no tempo de fonação que com o seu desenvolvimento torna a expiração, que antes era igual a inspiração, mas longa e controlada possibilitando uma fala encadeada. A extensão vocal dos bebês pode chegar até três oitavas devido a elasticidade da laringe e ausência de um ligamento vocal maduro. Com o passar do tempo essa extensão vocal é reduzida a uma oitava na infância e ampliada na pós-adolescência. A voz infantil apresenta pouca ressonância e harmônicos. Para se destacar a criança tende a aumentar a intensidade da voz.

Petzold, em “The development of auditory perception of musical sounds by children in the first six grades”, relata que o controle vocal está diretamente relacionado com a compreensão de altura das notas, sendo resultado de um pensamento inteligente a respeito dos conceitos musicais básicos e não da pura imitação. Ele também relata a maior dificuldade de afinação nos meninos com relação às meninas, comentando ser essa ocorrência causada pela pouca confiança e capacidade de considerar o canto uma forma natural de atuação musical para os meninos. Com relação à acuidade musical, nos dois primeiros anos, houve uma leve diferença sendo as meninas melhores do que os meninos no que diz respeito ao canto de melodia; a afinação dos meninos parecia melhor em outros tipos de testes, como, por exemplo, nos de repetições de pequenos padrões melódicos.
Segundo Salt, o controle do canto nas crianças está diretamente relacionado com o maior hábito de realizar a atividade, percebendo, mais facilmente, flutuações das alturas ao mesmo tempo em que, possivelmente, domina melhor seu aparelho vocal.

Antigamente, no canto, a voz infantil destacava-se por sua suavidade e inocência, criando uma cultura que personificava os anjos nas crianças cantoras. Com isso um caminho de estudos era criado desde cedo para elas para alcançar a perfeição. Mas logo vinha a muda vocal com emissões instáveis e perda da extensão aguda. No início do século XVI, numa tentativa bizarra para evitar a puberfonia, iniciou-se a castração de cantores infantis criando os primeiros “castratis”. Homens com tamanho e aparência de adultos com a extensão vocal feminina, mas dotados de grandes ressonadores e pulmões mais desenvolvidos. Felizmente essa prática foi proibida em 1878.

Muda vocal

A muda vocal pode variar por um período que vai desde alguns meses até um ano, tendo como característica a produção de uma voz rouca e flutuante, com quebras de sonoridade, tendendo sempre a tons graves. Em países de clima quente a muda vocal pode antecipar-se em dois anos e atrasar em mais de um ano em regiões de clima frio.
No adulto a laringe atinge o estágio de conclusão de seu desenvolvimento a partir dos 18 anos, nesse momento, as pregas vocais medem 17 milímetros no sexo feminino e, de 17 a 23 milímetros, no sexo masculino. A voz passa a ser considerada madura, sendo caracterizada pelo pleno controle da intensidade vocal, podendo produzir variações na frequência e na qualidade. Apresenta, também, diferenças de acordo com o sexo do falante, sendo que, no homem, a voz é grave com frequências baixas, e na mulher, a voz é aguda com frequências altas.

Voz Idosa

O início da presbifonia varia de acordo com o indivíduo, com sua saúde física e psicológica, além de fatores sociais, raciais, hereditários, sociais e ambientais. O período considerado de máxima eficiência vocal é dos 25 aos 45 anos, o início da presbifonia e o grau de deterioração vocal dependem do falante e dos ajustes que eles desenvolvem para compensar toda perda de eficiência vocal.
Aproximadamente, após os 65 anos, começa o declínio da voz. A voz pode reter os elementos essenciais de beleza, embora não apresente a mesma extensão e controle. Por diminuir as capacidades biológicas, o processo de envelhecimento torna o organismo vulnerável, refletindo também, diretamente na qualidade da fonação, que muitas vezes prejudica o indivíduo em seu equilíbrio psicológico e no seu status social.

Ocorrem modificações no mecanismo da voz que vão desde mudanças no posicionamento da laringe no pescoço e na sua mobilidade, devido a calcificação das cartilagens e atrofia muscular, na elasticidade muscular e redução de massa, na capacidade respiratória pulmonar, funções e estruturas das pregas vocais, entre outras alterações, causadas pelas mudanças fisiológicas e anatômicas. É preciso lembrar que todo esse processo pode ser minimizado com os hábitos adotados na qualidade de vida, saúde física e psicológica, alimentação, cuidados vocais durante o decorrer da vida.

Behlau & Pontes referem-se à transformação da laringe numa presbilaringe, onde aparecem dois tipos de alterações anatômicas mais significativas: calcificação e ossificação das cartilagens, que por volta dos 65 anos, apresentam-se quase sem nenhuma mobilidade e com atrofia dos músculos intrínsecos, resultando numa menor eficiência biomecânica.

Com relação à atividade vocal, a redução na velocidade é a característica motora mais presente no envelhecimento. A redução na capacidade respiratória influi na qualidade do sopro expiratório influindo também na duração da fonação. A extensão de frequências no registro modal diminui, com aumento da extensão no falsete para homens. A presença da instabilidade vocal, incluindo emissão trêmula dificulta a sustentação das notas.
Os aspectos considerados importantes no trabalho vocal com o idoso são: melhoria da eficiência aérea, a promoção e adequação na velocidade de fala, estabilidade da voz, extensão vocal, aumento da potência e projeção vocal. Devem ser realizados treinamentos auditivos para percepção da própria voz e diferentes parâmetros de vozes normais e anormais. Melhorar a eficiência pulmonar, através de exercícios respiratórios associados à emissão de sons facilitadores (fricativos surdos, sonoros e vibrantes), podendo associar a movimentos cervicais e corporais.

O estudo das fases de vida da voz é de sumária importância para qualquer profissional da voz. Para os professores de canto ou técnica vocal e para os regentes de coros, o domínio da percepção – a identificação de cada parte do processo – é primordial para garantir uma produção vocal saudável e de boa qualidade sonora.
A voz é como um “espelho interior” pode nos revelar muito mais do que a qualidade da fonação. Ela pode refletir estados físicos, psicológicos, de ansiedade, de medo, de baixa estima e de alterações de humor. Elementos importantes para diagnosticar e orientar a didática que deverá ser adotada.

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Sobre o Autor

Bruno Francesco

Formado em Publicidade, MBA em Marketing Digital e Músico. Mantém as duas carreiras: publicitário e cantor.

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